O artista Salvador Sobral decidiu retirar a sua obra musical da plataforma Spotify, em protesto contra o seu modelo de negócio, o investimento do cofundador e CEO da empresa na indústria militar, a baixa remuneração dos artistas e a proliferação de inteligência artificial nas listas de reprodução musical.
No entanto, a decisão durou pouco. Salvador Sobral acabou por repor a sua música na plataforma, reconhecendo que, apesar de manter as suas críticas e convicções, o Spotify representa um monopólio demasiado forte no consumo de música — «um Golias demasiado forte». A ausência do seu catálogo estava a prejudicar a venda de bilhetes, a sustentabilidade dos seus concertos e a relação com um público que reclamava diariamente o seu regresso.
Ora, parece-me que este episódio ilustra bem uma certa postura de uma parte do movimento revolucionário português: uma burguesia que gosta de cantar canções de protesto, denunciar o sistema e reclamar mudanças sociais, desde que não tenha de abdicar dos privilégios e do conforto que esse mesmo sistema lhe proporciona.
Veja-se a questão da habitação. Reclama-se o direito à habitação, mas, muitas vezes, a reivindicação concreta não é simplesmente ter acesso a uma casa: é ter uma casa no centro de Lisboa, nas zonas mais valorizadas da cidade ou, no limite, em Manhattan. Enquanto isso, existem casas vazias e oportunidades de habitação no interior do país que raramente parecem fazer parte da equação. Afinal, não se reclama apenas o direito a habitar; reclama-se o direito a habitar onde se quer, nas condições que se pretende e sem abdicar do estilo de vida desejado.
Eu também quero um «Ferrari amarelo». Aliás, essa bandeira satírica já foi hasteada no Brasil por Gabriel, o Pensador, e, mais recentemente, em Portugal, por Manuel João Vieira. Parece, portanto, que até essa reivindicação já tem os seus representantes. Não precisamos de a transformar numa nova causa revolucionária.
É esta a artificialidade de muitos destes protestos: apresentam-se como grandes causas coletivas, mas são frequentemente pouco mais do que exercícios de afirmação pública e encenação de virtude. Protesta-se para a fotografia, para o Instagram ou para o TikTok; empunham-se bandeiras, entoam-se palavras de ordem e proclamam-se convicções que raramente resistem ao confronto com os interesses pessoais. Por detrás de uma aparente vontade de transformar o sistema escondem-se, muitas vezes, aspirações individuais e expectativas de conforto de quem não pretende verdadeiramente mudá-lo, mas apenas garantir que este lhe proporciona o estilo de vida que ambiciona.
No fundo, são, como dizia Sam the
Kid, «poetas de karaoke» — ou, neste caso, diria eu, «poetas de TikTok».
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